20.10.17

Stefan George: "Ein gleiches" / "Despedida". trad. por Eduardo de Campos Valadares



Despedida

Comove-me o abraço e o brinde do adeus
A todas! Mãos calorosas: qual deus
Hoje leve me sinto · imune a amigos
E inimigos · rumo a novos perigos.



Ein gleiches

Da mich noch rührt der spruch der abschieds-trünke
Ihr all! und eure hand noch wärmt: wie dünke
Ich heut mich leicht wie nie · vor freund gefeit
Und feind · zu jeder neuen fahrt bereit.



GEORGE, Stefan. "Ein gleiches" / "Despedida". In:_____. Crepúsculo. Org. e trad. por Eduardo de Campos Valadares. São Paulo: Iluminuras, 2000.

18.10.17

Mário Quintana: "O poeta começa o dia"



O poeta começa o dia

Pela janela atiro meus sapatos, meu ouro, minha alma ao meio da rua.
Como Harum-al-Raschid, eu saio incógnito, feliz de desperdício...
Me espera o ônibus o horário a morte - que importa?
Eu sei me teleportar: estou agora
Em um Mercado Estelar... e olha!
Acabo de trocar
- em meio aos ruídos da rua -
alheio aos risos da rua -
todas as jubas do Sol
por uma trança da Lua!



QUINTANA, Mário. "O poeta começa o dia". In:_____. Nova antologia poética. 2ª ed. Rio de Janeiro: Codecri, 1981. 

16.10.17

Edgar Allan Poe: "Eldorado": trad. de Nelson Ascher



Eldorado

Um cavaleiro
seguiu faceiro
ao sol e à sombra, ousado
e, não obstante,
cantarolante,
em busca do Eldorado.

Mas ficou velho
esse andarilho
e não pôde, assombrado,
nunca, em lugar
algum, achar
nem sombra de Eldorado.

Enfim, diante
de sombra errante,
parou, já fatigado
e indagou: "Onde,
sombra, se esconde
a terra de Eldorado?"

"Vai às montanhas
da lua e entranhas
do atroz vale assombrado,
que há mais viagem”,
disse a miragem,
"se buscas o Eldorado."




Eldorado

Gaily bedight,
A gallant knight,
In sunshine and in shadow,
Had journeyed long,
Singing a song,
In search of Eldorado.

But he grew old
This knight so bold
And o'er his heart a shadow
Fell as he found
No spot of ground
That looked like Eldorado.

And, as his strength
Failed him at length,
He met a pilgrim shadow
"Shadow," said he,
"Where can it be
This land of Eldorado?"

"Over the Mountains
Of the Moon,
Down the Valley of the Shadow,
Ride, boldly ride,"
The shade replied
"If you seek for Eldorado!"




POE, Edgar Allan. "Eldorado". In: ASCHER, Nelson (trad. e org.). Poesia Alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

12.10.17

Juan Ramón Jiménez: "Ruta" / "Rota": trad. Antonio Cicero



Ruta

Todos duermen, abajo.
                                 Arriba, alertas,
el timonel y yo.


Él, mirando la aguja, dueño de
los cuerpos, con sus llaves
echadas. Yo, los ojos
en lo infinito, guiando
los tesoros abiertos de las almas.



JIMÉNEZ, Juan Ramón. "Ruta". In:_____. Piedra y cielo. Verso (1917-1918). Madrid: Edição do autor, 1919.





Rota

Todos dormem, embaixo.
                                    Em cima, alertas
o timoneiro e eu.

Ele, olhando a bússola, dono
dos corpos atrás de portas
fechadas. Eu, os olhos
no infinito, guiando
os tesouros abertos das almas.





9.10.17

Cacá Diegues: "Tragam suas crianças"



O seguinte, excelente artigo de Cacá Diegues foi publicado em O Globo de domingo, 8 de outubro de 2017:


Tragam suas crianças


Em 1865, o quadro “Olympia”, do pintor Édouard Manet, um dos pais históricos do impressionismo, foi recusado no Salão de Belas Artes de Paris. O quadro rejeitado foi então exposto no Salão dos Recusados, onde provocou um escândalo sem precedentes. “Olympia” retratava uma mulher nua, deitada na cama enquanto uma criada lhe trazia flores.

Além de mal pintado, um borrão de cores desordenado, atentado à boa pintura de uma época neoclássica e acadêmica, “Olympia” foi acusado também de indecente e pornográfico. Professores e estudantes de Belas Artes organizavam passeatas contra a obra, mães de família cobriam o quadro com lençóis para que ele não fosse visto, jornalistas zombeteiros faziam piadas ao vivo e em seus jornais.

Não se tem notícia, porém, de nenhuma autoridade local propondo sorridente que a tela e seus admiradores fossem jogados no fundo do mar.

Exatamente 150 anos depois, no verão europeu de 2015, o Museu d’Orsay e o l’Orangerie, duas das principais salas de exposição de arte em Paris, iniciaram intensa campanha de promoção de suas mostras com uma frase: “Emmenez vos enfants voir des gens tout nus” (em tradução livre, “Tragam suas crianças para ver pessoas completamente nuas”). E a imagem que ilustra a frase, nos cartazes da campanha, é a da tela “Mulher nua deitada”, pintada em 1907 por outro mestre impressionista, Auguste Renoir.

Os cartazes foram espalhados pelas ruas, por pontos de ônibus e estações de metrô, por onde quer que a população de Paris passasse. Segundo a diretora do Museu d’Orsay, a campanha, além de lembrar que os filhos podem ser responsáveis pela presença dos pais nas exposições, pretende também educar as crianças para um melhor conhecimento da vida através da arte. Mesmo uma tela como a célebre “A origem do mundo”, de Gustave Courbet, simples, dinâmica e bela reprodução do órgão sexual feminino, está liberada para a visão das crianças.

O Estado francês não tem o direito de se meter nesse assunto e não se meteu. A aprovação da maior parte da população do país coroa o avanço ético e educacional que o procedimento representa. Não se pode tratar crianças como débeis mentais, protegidas do mundo pela ignorância cultivada pelos pais e educadores; elas são responsáveis pela direção que o mundo um dia vai tomar. Qual o problema de conhecerem melhor o corpo humano e seu funcionamento? Para que serve a vida?

Além disso, vai à exposição e leva seus filhos quem bem quiser, contanto que não incomode ninguém. Quem não quiser, tampouco será obrigado a ir, sozinho ou acompanhado. É assim que funciona a democracia.

Uma emergente mentalidade restritiva e boçalizante tem se tornado frequente no Brasil de hoje. Os esforços do nosso modernismo na cultura brasileira, sobretudo durante a segunda metade do século XX, frustram-se na proibição de manifestações de liberdade, de novos conhecimentos, de exercícios da diferença e de alegria. O modernismo nos ensinou o direito de sermos felizes. Ele livrou o Brasil da falsidade colonial, de uma cultura de repressão, da negação do que somos. E agora somos ameaçados por essa aurora de um novo medievalismo cheio de preconceitos e de sombra. Antes de tudo, se condena a felicidade.

Os nazistas sabiam que a cultura é o cerne de toda nação que se quer formar. Goebbels inaugurou o domínio deles sobre a Alemanha com uma exposição de “Arte degenerada”, uma seleção de tudo que fosse liberdade criativa, tudo que representasse manifestação livre da invenção humana. O mais importante teórico do Partido Nazista, Alfred Rosenberg, acusou de degenerada a estética modernista de pintores como Chagall, Mondrian, Kandinsky, Klee, todos eles, cujas telas foram queimadas, antecedendo a grande fogueira de livros que representavam o mesmo “subjetivismo degenerado”.

Essa experiência não ficou perdida no tempo. Agora mesmo, já no século XXI, conhecemos o movimento político e cultural dos talibãs no Afeganistão e do Estado Islâmico no Iraque e na Síria, destruindo monumentos e cidades inteiras, sob o pretexto de adorações que contrariavam as crenças do islamismo. O fundamentalismo se repete no mundo inteiro, através de ações intolerantes em nome das religiões mais populares.

No Brasil, além da violência contra a “Queermuseu” em Porto Alegre e a performance “La Bête” no MAM de São Paulo, já tivemos a depredação do túmulo de Chico Xavier em Uberaba, a destruição de uma casa de candomblé apedrejada em Nova Iguaçu, a proibição da peça “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu” por um juiz do interior paulista, a alegre proposta de atirar uma exposição inteira no fundo do mar. E por aí afora.

A arte é um ofício solitário e sem limites conceituais, ninguém pode tentar domá-la em benefício de uma ideia que lhe é estranha. Desde as estátuas nuas de deuses e heróis gregos, tem sido sempre assim e assim sempre será. Esse é o jeito que temos de saber quem somos e o que queremos ser. A censura a isso, seja em nome do que for, é sempre inaceitável.


Cacá Diegues

8.10.17

Gregório Duvivier: "Plano de Poder"



É muito atual o seguinte momento do "Greg News", do Gregório Duvivier. Afinal, na semana passada, o pastor Crivella, por razões pseudo-moralistas, censurou uma exposição de arte. Como diz Gregório, precisamos estar atentos -- neste momento confuso da política brasileira -- ao perigoso plano de poder da Igreja Universal do Reino de Deus.

7.10.17

Adriano Nunes: "A falar de versos"



A falar de versos

para Antonio Cicero (por seu aniversário) 

Praia planejada
No primeiro encontro.
Mas a chuvarada
Veio forte e... Pronto:

Estamos nós dois
A falar de versos
E do que depois
Será, mais imersos

Em cada poeta
Que amamos. O mar
Até nos completa,
Neste patamar

De alegria estética.
Do Latino, as Odes
Belas, as grãs Odes!
Do Helênico, a Ética...

Na prima visita,
Rápida, na praia,
A arte se espraia
E a vida se agita.



Adriano Nunes